Descobrir (o) tempo , entre o Colégio e a Música

28 de Fevereiro, 2026

Da ciência à educação, das artes às letras, o tempo assume rostos diferentes, mas permanece como um fio invisível que molda todas as experiências humanas. Descobrir (o) tempo é descobrir os nossos limites, mas é também descobrir a (nossa) capacidade de transformar cada instante em possibilidade. Os alunos/as Maria do Carmo Ruivo (9.º ano), Lourenço Ribeiro (9.º ano), Daniel Marques (11.º ano) e Marta Santos (12.º ano) ajudam-nos a refletir sobre estas questões.
A Maria do Carmo (MCR) toca piano desde os 7 anos, o Lourenço (LR) toca violoncelo desde os 7 anos e o Daniel Marques (DM) toca piano desde os 6 anos. A Marta (MS) tem um percurso particular. Começou a tocar piano aos 6 anos. É o instrumento que mais estudou e no qual se sente mais à vontade. Afirma que foi também o instrumento que lhe “abriu a porta” a outros como o ukulele, que começou a tocar aos 10 anos, no grupo instrumental do Colégio e, mais tarde (com 14 anos), guitarra de forma autodidata.

Quando pensas no tempo, qual é a primeira coisa que te ocorre?
MCR: O tempo é precioso, e, apesar de parecer constante, a verdade é que acelera e refreia de acordo com o momento que estamos a viver. Também na música encontramos tempos mais rápidos e mais lentos.
LR: Sinto o tempo a passar mais devagar, no ritmo da música.
DM: Depende…. Tal como o percurso escolar, há muitas peças que me são exigidas tocar, mas existem também outras que faço por vontade. Nessas, ou até mesmo quando improviso sozinho, o tempo, de facto, parece suspenso para mim.

Quando tocas, como sentes o tempo?
MCR: Ao tocar, o tempo da vida parece suspender-se. É como se entrasse num espaço próprio, com um tempo próprio, onde apenas existe música.
MS: Quando toco, a música pára o tempo. Fico sem noção do que está à volta. Sou capaz de ficar tardes inteiras a tocar coisas diferentes, sem me aperceber da passagem do tempo. Mas no final, tenho sempre a sensação de que tudo passou depressa demais.

Há momentos em que sentes que a música “estica” ou “encolhe” o tempo?
MCR: Há obras em que a emoção nos faz sentir que o tempo se prolonga, e outras em que a intensidade e a velocidade o fazem passar num instante. A música altera por completo a nossa perceção temporal.
LR: Quando estou a tocar parece que o tempo de cada música se sincroniza com o tempo real.

Se a vida fosse uma partitura, que compasso escolherias para o teu dia a dia?
LR: ¾ porque não é muito acelerado nem muito devagar.

Como concilias partituras e cadernos de exercícios com os livros e trabalhos escolares?
MCR: Organizo o meu tempo e tento criar uma rotina equilibrada que me permita evoluir musicalmente sem comprometer o meu desempenho escolar. Por vezes é difícil porque, quer queiramos quer não, o tempo é limitado.
LR: Para manter tudo organizado eu tenho uma pasta à parte para guardar todas as partituras e cadernos da escola de música.
DM: Dedico cerca de meia hora a três quartos de hora por dia a estudar piano. O piano é uma atividade extracurricular e, portanto, é sempre importante focar-me mais nas disciplinas da escola, contudo tento sempre, ainda assim, não faltar ao estudo musical.
MS: A música não me retira muito tempo da escola. Na verdade, funciona quase como um escape quando tudo se torna demasiado. É algo que me ajuda e que, ao mesmo tempo, é lúdico.

O que aprendeste sobre ti ao dedicares-te à música e aos estudos ao mesmo tempo?
MCR: A pouco e pouco, fui descobrindo que, para fazer tudo o que quero e devo fazer na vida, tenho de adaptar-me, organizar-me e manter o foco, sobretudo em períodos de maior exigência.
DM: Aprendi que uma pessoa pode ter muitas qualidades diferentes. Não somos estereótipos, logo não somos uma representação da qualidade individual de uma área específica. Digo isto porque não é só o piano a minha única atividade extracurricular, tenho outras também, e ainda assim consigo (ou pelo menos tento) conciliar tudo, o que me leva ao segundo ponto, aprendi que é possível conciliar diferentes áreas de estudo sem haver sobrecarga do meu tempo livre. É apenas necessário saber organizar-me.

O que te motiva a continuar?
MCR: A minha paixão pela música.
DM: O meu afeto pela atividade, mas também o desejo de melhorar e poder ser um orgulho não só para os outros, mas também para mim.
MS: Continuo a tocar… porque não consigo imaginar a minha vida sem isso. Aprecio ouvir uma música e conseguir reproduzi-la. Sentar-me ao piano e não pensar em mais nada, exceto nas notas que estou a tocar.

A música ensinou-te algo que, até agora, a escola não poderia? Qual foi a lição mais importante?
MCR: Aprendi mais cedo com a música do que com a escola que, às vezes, o talento não basta. É preciso esforço e dedicação para termos melhor desempenho, tanto musicalmente como academicamente. E foi também na música que aprendi a importância do coletivo.
MS: Ao ouvir música, aprendemos muito sobre nós próprios. Ela transmite emoções e faz-nos refletir de uma forma única. Ao tocar um instrumento, ganhamos atenção, técnica e domínio das partituras, mas sobretudo aprendemos a interpretar algo de uma forma nossa, a perceber quando a música pede algo mais intenso ou mais leve, a tornar-nos um com aquilo que estamos a tocar. Criar e improvisar é, para mim, uma das melhores partes. O ato de criar algo a partir do nada é fascinante. Ver diversos sons transformarem-se em melodias e acordes, em algo que antes não existia.

Que tipo de tempo queres viver daqui para a frente: o da disciplina, o da criatividade ou o da descoberta?
MCR: Gostaria de viver um tempo que combine os três: a disciplina para evoluir, a criatividade para construir e a descoberta para continuar a ampliar horizontes, tanto musicalmente como pessoalmente.
DM: É difícil responder. Eu quero aprender e melhorar, mas também quero criar, produzir. Também seria interessante descobrir novas técnicas, aprender novos instrumentos, desbloquear habilidades que não conhecia… Se tivesse de escolher (um tipo de tempo) para o piano, provavelmente seria o da disciplina, visto que quero melhorar muito e superar-me cada vez mais. Se tivesse de escolher (um) para o geral na vida, provavelmente seria o da criatividade, dado que tenho um grande desejo de criar coisas novas, quer sejam músicas, quer projetos…
MS: Quero viver o tempo da criatividade. É algo que impulsiona a minha vida e pelo qual estou apaixonada. Há sempre algo dentro de mim que me pede para criar, quer seja música, desenho ou coreografia. A vida é um papel em branco que temos de pintar de várias cores. Criar algo a partir do nada. Revejo-me nesta citação: “(…) dentro de si havia outra vocação (…) a capacidade de criar; a capacidade de, a partir do nada, gerar alguma coisa.” (João Tordo, 2013).

Publicado em Gazeta Valsassina nº 90 – dezembro 2025, consulte a edição completa AQUI.

 

Gazeta Valsassina n.º 90

Pode ler esta e mais notícias na nossa Gazeta Valsassina n.º 90, de dezembro de 2025.

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