Entrevista a Susana Peralta OLD

2 de Março, 2026

Susana Peralta, especialista em Economia Política e Economia Pública, foi a convidada da segunda sessão do ciclo de conferências “Desafios do Nosso Tempo”, que decorreu no dia 10 de novembro. A conversa com os/as alunos/as do Ensino Secundário do Colégio Valsassina, intitulada “Para que(m) serve(m) a(s) política(s)?”, percorreu vários temas, entre os quais a política, os políticos e as políticas públicas. Ao longo da sessão os/as alunos/as colocaram questões que foram sendo respondidas pela economista, também docente universitária (NOVA SBE), cronista (Público) e comentadora (RTP e Rádio Observador).

Nesta entrevista, Susana Peralta partilha a sua visão sobre os desafios que se colocam atualmente à democracia. Ao longo da conversa, aborda temas como a transparência na administração pública, a diversidade ideológica e a importância de proteger as instituições democráticas, sobretudo num contexto marcado pela desinformação e pela polarização. Susana Peralta convida, assim, os jovens a refletir sobre o papel do Estado, as imperfeições inerentes ao sistema democrático e a responsabilidade que cada geração tem na defesa da liberdade.

Gostaria de começar por perguntar quais são, na sua opinião, os maiores desafios que marcam o nosso tempo, globais, políticos ou sociais. Tudo é político, não é?
A política tem uma palavra a dizer em tudo. A política é o domínio das nossas ideias acerca do mundo e, portanto, estas estão sempre presentes. Eu acho que há vários desafios evidentes, acho que o maior desafio do nosso tempo é a geopolítica. Nós estamos num mundo em que havia equilíbrios, havia algo garantido na nossa maneira de viver no Ocidente que deixou de estar por ameaças geopolíticas. Essas são fomentadas por diferenças muito grandes do ponto de vista económico. Consequentemente, nós não vamos conseguir responder aos outros desafios do nosso tempo, que são, certamente, o desafio ambiental e o desafio relativamente às desigualdades socioeconómicas.

Como é que a Susana define democracia e, para si, quais é que são os seus pilares fundamentais?
A democracia é um sistema de governo que, no fundo, é uma máquina de interpretar e de acomodar diferenças de opiniões das pessoas, diferenças ideológicas, diferenças normativas. Todos nós temos visões diferentes acerca daquilo que nós achamos que a nossa comunidade política deve fazer e a democracia é uma maneira de pegar nessa salada de diferentes opiniões e de tentar encontrar ali o mínimo de ordem. No fundo, é chegar a decisões coletivas, isso é a democracia. Enfim, a ditadura também é uma maneira de o fazer, só que apenas conta com a opinião do ditador e de uma minoria de pessoas à sua volta, não é? Ao passo que a democracia pretende dar o maior espaço possível à divergência; portanto, é uma máquina de acomodar divergências e isso é, por um lado, a sua beleza e é também a sua fraqueza, porque é muito difícil acomodar divergências sem ter ineficiências, lentidões e, às vezes, bloqueios. Assim, a democracia não é desenhada nem para ser rápida, nem para ser bastante eficiente, nem para evitar bloqueios. Ela é desenhada para gerir as divergências. Um dos seus pilares, quanto a mim, é o voto, um cidadão, um voto. Acho que as pessoas deviam votar, pelo menos, a partir dos 16 anos. Adicionalmente, a proteção de toda a nossa privacidade no momento do voto e de estarmos livres de pressão é também um pilar essencial. Contudo, a democracia vai muito para além da realização de eleições. Aliás, há muitas ditaduras e regimes autoritários que organizam votos. Desta forma, uma democracia tem também de ter, obviamente, uma imprensa livre e têm de existir vários poderes com diferentes naturezas para termos pesos e contrapesos. Ademais, tem de existir um sistema judiciário completamente independente e dotado dos recursos para fazer o seu trabalho, dando voz às minorias.

Também gostaríamos de saber como é que, em tempos de desinformação e de polarização, a política consegue recuperar a confiança das pessoas.
Eu não sei! Eu acho que sempre houve desinformação, sempre houve polarização. Sou um bocadinho cética em relação a essas ideias, pois eu acho que não é verdade. Agora, é evidente que houve alterações tecnológicas que acabaram por aumentar esses fenómenos e, em todo o caso, por acelerar e facilitar a circulação de informação. Portanto, eu acho que é um desafio próprio dos nossos tempos, não me parece que o tema seja novo em si. Eu não sei bem como é que isso se resolve… Acho que tem de haver muita literacia, temos de ensinar as pessoas, tem de se conversar, tem de se investir em educação. Educação neste sentido, isto que nós estamos aqui a fazer, a falar uns com os outros. Acho que também temos de regulamentar esses grandes gigantes tecnológicos e as suas plataformas, tendo sempre muito cuidado com o policiamento do discurso. Mas eu acho que há, certamente, coisas que se podem fazer do ponto de vista da regulamentação dos algoritmos, da transparência dos mesmos. Sou muito cética, porque, de facto, o poder destas empresas é gigantesco.

Que importância tem a participação cidadã, principalmente dos jovens, na construção de políticas mais justas e eficazes?
É essencial, eu acho que é absolutamente essencial. Tudo aquilo que nós aqui estivemos a dizer sobre a qualidade da democracia e dos seus potenciais problemas é essencial à nossa participação cívica. A democracia também precisa de informação, ou seja, a nossa participação cívica em associações com diferentes interesses também serve para informar o Governo. Não pode ser só o feedback nas eleições. A eleição é uma parte essencial, mas muito pequenina, de uma democracia saudável. E a vossa participação cívica é um recurso importantíssimo. Há associações para todos os gostos. Façam tudo, esse é o nosso caminho coletivo para sermos uma comunidade política que apesar de tudo consegue conviver num espaço democrático. Isso é o mais essencial de tudo.

Qual deve ser o papel da escola e como podemos tornar a educação mais ligada à realidade social, ambiental e económica?
O papel da escola é absolutamente essencial. Sou muito cética daquela ideia de que as famílias é que devem ter a completa responsabilidade por educar as crianças em determinados assuntos. Nós
não sabemos o ambiente familiar de todas as crianças, desde logo temos de as proteger. Ou seja, nós não podemos estar a confiar nas boas intenções ou nos recursos intelectuais e emocionais das famílias, há pessoas que simplesmente não conseguem, não têm vidas para isso, para formar os jovens na sua dimensão de cidadania. Logo, eu acho que isso tem de ser o papel da escola, como é óbvio, até porque a nossa comunidade política depende também desses valores partilhados. Nós não temos de pensar todos o mesmo, mas temos de ter certos valores para percebermos desde logo as diferenças de opiniões e para as aceitarmos e podermos deliberar em conjunto. A  escola tem um papel absolutamente fundamental nisso.

Sabendo que a inteligência artificial e a automação vão transformar o mercado de trabalho, como é que nós, os jovens, podemos lidar com estas mudanças?
O mercado de trabalho foi sendo transformado ao longo de diferentes momentos de transição tecnológica. Há quem diga que esta é uma transição mais disruptiva do que as outras. De facto, isto
de podermos falar com uma máquina é uma coisa nova, não é? Digamos, é muito mais antropomórfica; ou seja, eu falo com um ou com outro modelo, de uma maneira muito mais próxima da conversa que estamos aqui a ter. Como é que nós adaptamos os seres humanos a isso? Não sei, não faço ideia. Acho que temos de apostar numa formação de qualidade para serem suficientemente adaptativas. Isto provavelmente quer dizer investir numa formação muito menos orientada para práticas e muito mais para a formação do pensamento.

Para concluir, queria pedir-lhe uma mensagem final para os alunos do Valsassina, que nasceram e viveram num contexto tão específico e feliz que é a liberdade.
Independentemente das visões ideológicas de cada um, todas são válidas, todas elas, desde que dentro dos limites da Constituição. É legítimo e faz parte das nossas saudáveis diferenças ideológicas. Podemos discuti-las: queremos mais Estado Social, menos Estado Social… tudo isso é muito legítimo. Agora, aquilo que me preocupa mais, na verdade, é a Liberdade, é a democracia. Ou seja, percebermos que esta máquina é, apesar de tudo, razoavelmente bem construída para gerir estas nossas divergências, para nos permitir sermos diferentes, e que, como eu dizia no início, este milagre de não andarmos todos “à batatada” é realmente incrível. E é também aceitarmos a democracia com as suas imperfeições: perceber que há sempre um reverso da medalha. Por exemplo, se quisermos melhorar o respeito pela genuína vontade democrática das pessoas ao nível local, tiramos a limitação de mandatos; mas isso pode causar depois distorções na concorrência eleitoral, porque uma pessoa pode ficar demasiado tempo no poder, mesmo que não seja corrupta ou mal-intencionada. E, se for, pior ainda, não é? Portanto, temos de estar dispostos a perceber que a democracia tem estas imperfeições e que a única coisa que conseguimos fazer são “pensos rápidos” para a ir melhorando. Aceitá-la com as suas imperfeições e perceber que temos de a defender — porque a ditadura é sempre pior. É sempre pior em tudo. E era isso que eu queria que esta geração percebesse: o valor da democracia.

“… a ditadura é sempre pior. É sempre pior em tudo. E era isso que eu queria que esta geração percebesse: o valor da democracia.”

Gazeta Valsassina n.º 90

Pode ler esta e mais notícias na nossa Gazeta Valsassina n.º 90, de dezembro de 2025.

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