No âmbito da renovação dos espaços do Jardim de Infância, o Colégio está a desenvolver um novo projeto para as áreas exteriores, concebido a partir de um processo de co-criação que reuniu as equipas pedagógica e de projeto. Sob a coordenação do Professor Frederico Lopes, esta reflexão conjunta procurou compreender de forma aprofundada como as crianças exploram, transformam e se apropriam destes ambientes, reconhecendo-os como contextos fundamentais para o desenvolvimento da autonomia, da criatividade, das competências sociais e da relação com o mundo que as rodeia.
Mais do que locais de recreio, os espaços exteriores são entendidos como ambientes educativos privilegiados, onde o brincar, a descoberta e a interação contribuem diariamente para o crescimento e a aprendizagem das crianças. O processo de co-criação permitiu, por isso, identificar necessidades concretas e traduzi-las em soluções espaciais capazes de responder às intenções educativas e às formas de utilização observadas no quotidiano.
As reflexões desenvolvidas ao longo deste processo evidenciaram a importância de criar ambientes capazes de acolher diferentes formas de brincar e aprender: movimento intenso, exploração sensorial, jogo simbólico, observação, descanso e interação social. A partir destas ideias, foi definido um conjunto de princípios orientadores centrados na autonomia, no contacto com materiais naturais e na criação de oportunidades para experimentar, imaginar, descobrir e crescer.
A proposta organiza o espaço de forma flexível, evitando funções rígidas ou excessivamente delimitadas. Percursos, zonas de desafio físico, espaços de pausa e contextos de exploração sensorial articulam-se entre si, permitindo que cada criança construa a sua própria experiência. O objetivo é criar um ambiente que acompanhe os movimentos naturais da infância, respeitando os diferentes ritmos de desenvolvimento e incentivando a capacidade de decisão e de iniciativa.
Neste contexto, o espaço não determina o que a criança deve fazer nem impõe formas únicas de utilização. Pelo contrário, oferece possibilidades. Cada criança pode escolher se quer correr, observar, conversar, refugiar-se num lugar mais tranquilo, explorar materiais, inventar um jogo ou transformar uma descoberta numa nova brincadeira. Esta liberdade de escolha constitui uma dimensão central do projeto, reconhecendo o valor do tempo não estruturado como oportunidade para desenvolver autonomia, iniciativa, criatividade e capacidade de auto-organização.
Entre os elementos previstos destacam-se estruturas de equilíbrio, zonas de escalada, percursos sinuosos, áreas com materiais naturais, cozinhas de lama, espaços de observação, plataformas para representação e locais de encontro e de descanso. O risco é entendido como parte integrante da aprendizagem e cuidadosamente enquadrado, permitindo desenvolver autoconfiança, autonomia e capacidade de avaliar limites de forma segura.
Os novos espaços organizam-se em quatro setores complementares, cada um com características próprias e desafios ajustados ao desenvolvimento infantil. O Recreio de Cima privilegia o equilíbrio e a observação; o Recreio de Baixo promove o movimento, a expressão e a exploração; o Recreio Norte estrutura-se em patamares que favorecem uma progressão de experiências e desafios; e a Rótula assume-se como elemento articulador, funcionando como ponto de encontro e de ligação entre os diferentes territórios de brincar.
Uma dimensão particularmente valorizada no projeto é a relação com os materiais. Superfícies como godo, terra, madeira, lama, cordas ou ardósia proporcionam experiências sensoriais diversificadas e estimulam competências motoras, cognitivas, sociais e emocionais. Cada material convida a diferentes formas de exploração, transformando o espaço exterior num verdadeiro laboratório de aprendizagem.
A liberdade promovida pelo projeto não se limita à possibilidade de escolher entre diferentes atividades. Reside também na possibilidade de as crianças influenciarem e transformarem o ambiente que habitam. Inspirada no conceito dos materiais soltos e não estruturados (loose parts), a proposta integra elementos como pedras, troncos, pneus e outros materiais naturais que podem ser transportados, reorganizados e incorporados nas brincadeiras. O recreio deixa, assim, de ser um cenário fixo para se tornar um ambiente vivo e em permanente construção, onde cada intervenção abre novas possibilidades de exploração, de imaginação, de cooperação e de aprendizagem.
Entendidos como uma paisagem pedagógica integrada, estes novos espaços foram concebidos para apoiar o desenvolvimento integral das crianças. Mais do que disponibilizar equipamentos ou áreas de recreio, procuram criar condições para que cada criança encontre o seu próprio modo de brincar, de explorar, de relacionar-se e de crescer. Através do movimento, da imaginação, da cooperação e da descoberta, contribuirão para tornar o quotidiano do Jardim de Infância ainda mais rico, significativo e inspirador.
Júlia Santos, Coordenadora do Jardim de Infância
Teresa Valsassina, Presidente do Conselho de Administração

