Entrevista a Mia Couto

21 de Março, 2026

Gostaria de iniciar esta entrevista perguntando-lhe quando percebeu que queria ser escritor. Foi muito cedo, talvez quando tinha 14 anos. Contudo, não percebi exatamente que queria ser um escritor.
Não foi uma decisão que eu tivesse tomado. Foi acontecendo. Comecei a ser escritor porque eu inventava histórias em casa. Acho que foi isso que me marcou como o início de alguma coisa.

O tempo é uma presença constante na sua obra, às vezes como memória, às vezes como espera ou como sonho. Como é que o tempo se manifesta no seu quotidiano como escritor?
De forma quase caótica, é como se não houvesse tempo, mas sim tempos no plural. Quando eu estou a escrever, o tempo é um, tem um certo ritmo, há ali um “compasso”, de repente já não estou ligado ao mundo, à realidade. Esse é um tempo, um tempo do sonho, é um tempo que não pode ser medido. No resto… eu dou pouca confiança ao tempo, normalmente não sei que horas são! Isso é um privilégio, não sei em que dia estou, às vezes não sei em que mês estou. É um privilégio porque se eu fosse trabalhador num escritório, por exemplo, eu não podia ter esse privilégio.

Considera que há um “tempo certo” para escrever? Ou a escrita é um exercício contínuo, mesmo quando não está “à frente da página”?
A escrita, para mim, está sempre a acontecer. Eu vivo escrevendo todo o tempo, mesmo quando não estou próximo da página ou do ecrã, eu estou sempre a escrever no sentido em que a escrita tem muitos momentos. Há um momento em que não tenho consciência de que estou a começar a ter uma relação com uma história. Depois há momentos em que é um trabalho, como qualquer outro trabalho, uma oficina, eu tenho que reescrever. Eu escrevo todos os dias e quando não escrevo, reescrevo. Quando não tenho criatividade, o livro não está a acontecer, não estou com inspiração, então não fico parado.

Vivemos hoje numa sociedade acelerada, em que tudo parece ter de ser imediato. Como é que o escritor lida com essa urgência e preserva o tempo interior necessário à criação?
Essa é uma boa pergunta, porque estamos todos condenados a essa imposição de um tempo que é não só acelerado, mas é fragmentado. Isto é, a história tem que começar e acabar logo, porque, se não, vamos à procura de uma outra coisa e isso é viciante. Não só para vocês, mas para nós de outras gerações mais velhas também isso cria uma espécie de vício. De repente perdemos a paciência pelo tempo da espera, por aquilo que demora, porque não se pode pedir a uma flor que se apresse para desabrochar, não se pode pedir a um fruto para ter mais pressa para amadurecer. A vida tem o seu tempo, nós próprios temos um tempo de infância, de adolescência, que tem de ser vivido intensamente e não tem de ser acelerado. Acho que precisamos de ter mais respeito pelas coisas vivas do que as coisas produzidas por uma máquina. Esse tempo da vida tem que ser respeitado.

Numa entrevista, disse um dia que as crianças deviam escrever e que o preocupava que as crianças não tivessem vontade de escrever sobre si e sobre o mundo. Pode explicar-nos melhor essa ideia?
Não é exatamente que tenham que escrever. Não gosto da ideia de dizer que as crianças têm que fazer como se fosse uma obrigação (incluindo escrever). Há muitas crianças que não vão escrever na vida inteira. Vocês têm um privilégio enorme, estão num bom Colégio, estão num país em que todos os meninos estudam, todas as meninas estudam. Há muitos países em que muitas crianças e jovens como vocês não têm acesso à escola. Moçambique é um país em que a maior parte das meninas, uma em cada cinco meninas que entram na escola não chegam ao fim da escola primária sequer, não chegam ao fim da quarta classe [4.º ano do 1.º Ciclo], porque a família pensa que é mais útil que elas fiquem a trabalhar em casa. Como tal, escrever não é o mais importante. Acho que o importante é ter a capacidade de criar histórias, contar histórias aos outros, transformar-se.

As suas personagens vivem entre o passado e o presente, entre o real e o imaginário. Como constrói o tempo narrativo das suas histórias?
As personagens aparecem. Eu tenho que ficar apaixonado por aquela personagem. Ela tem que viver tão intensamente em mim que ela não sai de mim. A jantar, a almoçar, a dormir, ela está comigo. Essa personagem está comigo. Toma posse de mim. E depois é ela que impõe a narrativa, é ela que impõe o seu tempo, como é que vai existir e eu tenho que fazer como ela manda em mim depois.

Onde costuma encontrar as histórias: nas pessoas, na natureza, nas memórias, no acaso? E que importância têm o lugar, a terra, o cheiro, na sua forma de criar?
No lugar onde eu vivo, em Moçambique, para as culturas moçambicanas não há diferença(s) entre pessoas e natureza. Não existe palavra para dizer natureza em nenhuma língua indígena, africana, em Moçambique. Isso para mim é uma coisa muito feliz. Quando olho para uma árvore é como se olhasse, não para uma coisa, mas para uma entidade viva que está ali, que tem voz, tem uma alma, com quem eu posso falar. Interessa-me saber a história das árvores, dos bichos. Então acho que não existe essa ideia de que eu estou a fazer uma história que tem personagens que são sempre pessoas. Um rio, uma montanha, etc., pode-me dizer, pode-me suscitar uma história. Sobretudo na relação que ele tem com as pessoas.

Que experiências foram mais marcantes na sua formação como homem e como escritor?
Isso é uma grande pergunta. Não sei, a guerra marcou-me muito. A guerra, quando ela é vivida como eu vivi, e não é só vista na televisão, marca muito. Quando olhas para a Palestina, vemos o lado da destruição, as ruínas, as mortes, mas lá dentro resiste uma coisa chamada vida. As pessoas estão lá dentro e todos os dias resistem. E essa história de como é que se fabrica esperança, como é que se fabrica vida, nessa entreajuda que se faz de uma maneira profundamente solidária, é uma coisa em que a guerra me marcou muito. A guerra não consegue desumanizar tudo, uma parte de nós continua profundamente humana, para podermos resistir, e essa experiência marcou-me muito.

Há algum livro seu que o tenha transformado mais profundamente?
Pelo mesmo motivo que eu disse agora, A Terra Sonâmbula foi feita durante o período final da Guerra Civil. Por isso, este livro me marcou muito. A guerra era tão intensa, pensei que só seria capaz de sobreviver naquele clima em que todos os dias saía de casa e nem sabia se tinha comida para trazer para os meus filhos. Eu pensei: não é possível escrever um livro enquanto isto está a acontecer. Só posso escrever um livro sobre a guerra quando chegar à paz. Mas não, eu comecei a escrever ainda a guerra estava a acontecer, como uma espécie de resistência. Esse livro marcou-me muito!

Falemos um pouco sobre a sua juventude, que foi vivida num tempo de grandes transformações em Moçambique. Que memórias guarda desse período de luta e de esperança?
São muito períodos de luta e de mudanças. Eu nasci durante o período colonial. Moçambique ainda não era Moçambique. Ainda era um território sob domínio português. Com 15, 16 anos já tinha a perceção daquela realidade, queria combater contra aquilo. Porque havia uma situação que não me fazia feliz. Porque a maior parte das pessoas que conviviam comigo eram pessoas de raça negra, eram desclassificadas, eram discriminadas, e isso não podia deixar-me feliz. Então, eu pensei, não porque eu fosse especial, mas porque a minha casa era assim, o meu pai e a minha mãe tinham essa sensibilidade, que eu devia lutar, lutar contra esse modo de organizar o mundo. Depois fui para a universidade e sonhava em ser médico, sonhava em ser psiquiatra. Depois, de repente, porque houve a independência e era preciso fazer outras coisas, abdiquei desse desejo e fui para onde me disseram para ir, fui jornalista durante 12 anos. Depois voltei à universidade, já queria ser biólogo, já não queria ser médico. Não sei se estou a responder bem à tua pergunta… Acho que fui um privilegiado, porque eu vivi um período colonial, um período de regime socialista, que foi uma espécie de utopia que depois foi substituído por uma outra sociedade capitalista, mais selvagem. Vivi tempos de guerra, vivi tempos de paz, tive oportunidades de fazer viagens por muitos mundos, e vivo num país que é muito diverso. Somos 33 milhões de pessoas em Moçambique, há quase 20 diferentes povos vivendo juntos, com línguas diferentes, com culturas e religiões diferentes. Essa é uma grande aprendizagem para mim.

O que significa para si Liberdade?
Liberdade implica poder ter escolha, não só a escolha que nós queremos, mas aquela que é possível, porque, repara, às vezes condenamos as pessoas que são pobres e que fazem opções pelo pequeno furto para sobreviverem. Nós temos o privilégio de não termos de fazer isso para sobreviver. Acho que é preciso ter cuidado em julgar os outros de uma maneira apressada. Liberdade para mim é poder escolher sem esse constrangimento.

Para concluir esta entrevista, que mensagem gostaria de deixar aos nossos alunos, que nasceram e viveram sempre em liberdade e em democracia?
Acho que é importante dizer isto, sobretudo porque quando eu visito Portugal noto que há uma crescente onda que desvaloriza a liberdade que Portugal conquistou depois de 50 anos de um regime fascista, quase nazi. Um regime fascista em que não havia liberdade. O meu pai foi preso duas vezes. Eu vi o meu pai ser conduzido para a prisão por coisas que não tinham nenhum sentido. É importante não esquecer esse tempo, essas vidas que se entregaram pela liberdade e pela democracia em Portugal. Tratar bem a democracia é uma coisa que nasce, mas pode morrer, pode ser maltratada. Precisamos de uma vigilância para aqueles que querem maltratar a liberdade e a democracia nos dias de hoje.

Mia Couto com os alunos do Colégio Valsassina

No dia 18 de novembro, os/as alunos/as do 3.º Ciclo viveram uma tarde inesquecível com a visita do escritor Mia Couto, que apresentou a sua mais recente obra, As Sementes do Céu. O encontro, marcado por grande entusiasmo, trouxe ao Colégio Valsassina uma história que convida à reflexão sobre a preservação do ambiente e o diálogo entre gerações, temas que despertaram a atenção e a sensibilidade dos/as alunos/as. Um momento inspirador que acendeu o desejo de imaginar, criar e questionar. A presença do autor no Colégio, que se define como um “fabricador de histórias”, foi uma oportunidade para conversar e conhecer melhor a pessoa e o universo literário de Mia Couto, através de uma entrevista conduzida pelos/as alunos/as do 8.º ano, Ana Silva, Francisco Medina, Sara Salpico e Teresa Cintra.

A Entrevista a Mia Couto

“Tratar bem a democracia é uma coisa que nasce, mas pode morrer, pode ser maltratada. Precisamos de uma vigilância para aqueles
que querem maltratar a liberdade e a democracia nos dias de hoje.”

Gazeta Valsassina n.º 90

Pode ler esta e mais notícias na nossa Gazeta Valsassina n.º 90, de dezembro de 2025.

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