Pontes de Leitura: A dinamização de histórias entre o 2.º Ciclo e o Jardim de Infância

11 de Julho, 2026

A Biblioteca lançou um desafio aos/às alunos/as no final do mês de abril: organizando-se em pares, devem selecionar uma história e ensaiar a leitura que farão aos/as alunos/as do Jardim de Infância (3-5 anos). O desafio foi recebido com grande interesse e dedicação, em particular pelas alunas do 2.º Ciclo. Cientes da importância da tarefa que vão desempenhar, cada aluno/a coloca orgulhosamente um crachá ao peito: “eu sou um/a contador/a de histórias”.

O ato de contar histórias é uma das ferramentas pedagógicas mais ricas para o desenvolvimento infantil. Quando esta atividade é dinamizada por alunos/as do 2.º Ciclo para crianças do pré-escolar, cria-se um ecossistema de aprendizagem mútua. Segundo a perspetiva de Inês Sim-Sim na obra Desenvolvimento da Linguagem, a linguagem oral e o contacto com o código escrito são processos contínuos que se alimentam da interação social.

Para as crianças, ouvir uma história contada por “crianças mais velhas” oferece um modelo de competência linguística próximo e inspirador. Sim-Sim defende que a literacia emergente – o conjunto de conhecimentos e de atitudes sobre a escrita antes da instrução formal – é potenciada pelo contacto com leitores fluentes. Nota a aluna Alice Brito (6.º B): “É a contar e a ouvir histórias que se imagina mundos. Estes alunos (3-5 anos) não sabem ler, não poderiam entrar na história nem imaginar aventuras sem os contadores”.

“Estes conhecimentos que vão adquirindo, e que muitas vezes nos passam despercebidos, só se vão estruturando e desenvolvendo se as crianças tiverem contactos diretos, diversificados e sistemáticos com situações em que observam e interagem com alguém que lê” (Mata, 2008, p. 67). Os contactos precoces que as crianças têm ou não com as práticas de leitura e escrita determinam também a relação que as crianças estabelecem com a sua aprendizagem. Quanto mais cedo a criança estiver em contacto com as práticas de leitura, mais facilmente se tornará um leitor/escritor envolvente.

O benefício não é unilateral. Para o/a aluno/a de 10-12 anos, assumir o papel de contador de histórias exige o domínio da fluência e compreensão da leitura, áreas que Sim-Sim identifica como cruciais para o sucesso académico. Para contar uma história a um público mais novo, o/a aluno/a do 2.º Ciclo tem de adaptar a sua entoação, ritmo e vocabulário. Este processo reforça as suas próprias “estratégias de monitorização da leitura”. Esta é uma atividade que promove competências transversais, como a empatia e a capacidade de comunicação interpessoal, fundamentais na transição entre ciclos de ensino. Tal como notou a Madalena van Zeller (5.º D), “há várias maneiras de ser professor: quando vamos contar histórias estamos a ensinar”.

Num ambiente descontraído e em diálogo constante, as crianças mais pequenas são convidadas a receberem os/as alunos/as mais crescidos/as, que chegam entusiasmados/as para partilhar o mundo mágico das histórias. Madalena Ramalho (3 anos C) refere: “Eu gosto que eles venham porque eles contam histórias muito giras” .

Contudo, a magia não termina com a expressão “vitória vitória, acabou-se a história”. Concluída a leitura, os/as alunos/as mais velhos/as são convidados/as a permanecer nas salas dos três anos ou a entrar no jardim onde as verdadeiras aventuras acontecem. É neste momento de transição que as ligações afetivas se consolidam. Sentados/as no chão ou explorando o espaço, partilham jogos, brincadeiras e conversas. Guilherme Sanches (3 anos C), partilha alegremente: “Eles depois brincaram comigo com a lama. Eu gostei”. O entusiasmo contagioso das crianças promove uma transformação nos/as alunos/as do liceu. Entre gargalhadas e olhares cúmplices, uma das contadoras de histórias resume a pureza da experiência: “Sinto que voltei à minha infância”. Ali, na simplicidade do brincar, os/as mais velhos/as relembram a leveza do seu próprio percurso, enquanto os/as mais pequenos/as ganham referências para o futuro, repletas de afeto.

A junção das teorias de Sim-Sim e de Mata mostra que a leitura é tanto um ato de inteligência como um ato de relação. Ao colocarmos alunos/as do 2.º Ciclo a contar histórias aos/às mais novos/as, estamos a validar as competências dos/as mais velhos/as e a despertar a curiosidade intelectual dos/as mais novos/as, criando uma comunidade de leitores resiliente e motivada.

Mais do que superar um desafio que lhes foi proposto, as/os alunas/os têm, a cada história contada, criado uma outra coisa: ao trazer de casa as histórias da sua infância, ao levar marcadores de leitura ou desenhos para oferecer a cada aluno/a, levam parte de si para a história que contam, mostrando que contar é (re)criar, é criar outra vez, e outra e outra, e tantas vezes quanto for possível imaginar. Sempre que adequam o tom de voz para contar uma história, que escutam atentamente as perguntas e que mostram cada página aos coloridos olhos dos/as alunos/as mais novos/as, estes/as alunos/as deixam um pouco de si. As conhecidas palavras, frequentemente atribuídas a Saint-Exupéry mas de origem popular e de autoria desconhecida, já o expressavam: “Aqueles que passam por nós (…) deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Camila Sousa, Coordenadora da Biblioteca
Maria Ribeiro de Carvalho e Sofia Linhares, Educadoras de Infância

Tempo para observar, refletir e criar

Madalena van Zeller (5.º D), “há várias maneiras de ser professor: quando vamos contar histórias estamos a ensinar”

Gazeta Valsassina n.º 90

Pode ler esta e mais notícias na nossa Gazeta Valsassina n.º 92, de julho de 2026.

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